terça-feira, 31 de outubro de 2017

Caminhos de Pedra- Bento Gonçalves


O motivo dessa viagem: o Caminho de Pedras. Se você vir um desses pontos de ônibus feitos com pedras, está no rumo certo. São 12 quilômetros e o tempo que vai levar para percorre-los vai depender dos seus interesses e até da sua fome. 
 
No caminho já se vê o capricho dos moradores dessa região.
 Eles tem o maior cuidado com o jardim até na beira da estrada. 
Uma das casas que é logo no início não pudemos ver por que estava sendo restaurada, a Casa de Doces Predebon. Entretanto, encontramos essa destilaria de whisky que nunca tinha ouvido falar. A construção em forma de castelo, aparentemente tudo funcionando mas não conseguimos entrar. 
O vizinho de frente disse que mora lá há vinte anos e nunca tomou um gole de whisky deles. Frustrante.
Caminhos de Pedra - Casa Righesso
Um pouco mais adiante a Casa Ângelo Restaurante, ou Casa Righesso, foi  construída em 1889 pelos italianos imigrantes com o que encontraram à sua volta, pedras de basalto irregular de cor preta e as uniram entre si com uma mistura de feno, palha de trigo e estrume de vaca. Esta casa tem sótão, também chamado de "granaro", que servia para armazenagem de grãos e forragens, e também como isolante térmico no inverno. Originalmente era coberta de tabuinhas de madeira. As telhas em cerâmica, muito utilizadas pelos alemães, só mais tarde foram incorporadas à arquitetura italiana. 
Gente, a história é longa e enfim, hoje funciona lá esse restaurante que é um aconchego só. Reparem na largura da parede! 
E essas folhas de parreira feitas de cerâmica? Adorei!
Essa casa foi construída por volta de 1880 pelo imigrante Giuseppe Dall'Acqua. Passou pelas mãos de outras famílias, como as demais e também ficou descaracterizada por muitos anos. Isso significa que ou foi rebocada ou a cobriram com tábuas e se você passasse na frente dela há uns anos não a reconheceria. Daí o Hotel Dall'Onder ajudou financeiramente para que ela voltasse à sua beleza original em 1994. Foi a primeira casa restaurada pelo Projeto Cultural Caminhos de Pedra. Na parte dos fundos funciona o restaurante Nonna Ludia. Comidinha italiana, claro.
Muito interessante, ao lado da casa tem essa árvore enorme, uma Maria Mole (ou Umbu) . Ela de fato serviu de abrigo provisório para as famílias recém chegadas. Como o tronco é relativamente mole, pode-se escavar seu interior.
Árvore Umbu ou Maria Mole
 É possível imaginar a situação do pessoal que chegava, famílias inteiras, pouca bagagem, até se ambientarem, deve ter sido muito duro mesmo esse começo. Decerto ficavam ali até conhecerem outras famílias ou até receberem de fato os lotes de terra prometidos. Existiam outras árvores como essa na época, me contaram.
 O pessoal ainda semeia na mão. Tudo nos remete ao passado.
Caminhos de Pedra
Muita paisagem bonita no caminho.
No Il Cantuccio del Pomodoro, como o nome já diz, tem tudo relacionado a tomates. Uma mocinha muito empolgada fez uma breve e interessante palestra e daí, vamos ao que interessa, a degustação. Tem até cerveja com tomate! 
Lá também tem um restaurante num galpão, réplica dos galpões em que os italianos se instalavam ao chegar nesta região. 
Hoje quem cuida de tudo são os descendentes da Família Menoncin que chegou da Itália em 1891 comandada por Antonio Menoncin. 
São seis gerações que tem muito orgulho do que sua família construiu com enxadas, foices e muito esforço. 
O restaurante serve comida típica italiana, com pratos a base de tomate.
O bom desse passeio é explorar. Pega-se uma estradinha de terra e sempre tem uma vinícola familiar ou uma casinha de madeira simples e com jardim bem cuidado.
Na Casa Fontanari fomos tão bem recebidas! 
Tudo começou no porão de pedra construído em 1932! 
Não dá para sair duma visita dessas sem algum produto. Essa vinícola fica no alto, bem em frente ao nosso próximo destino que seria a Casa das Ovelhas. Dava para ver os carneirinhos de longe.
Casa de pedra- pousada
Outra coisa que achamos andando sem rumo foi essa pousada. Os proprietários moram numa casa antiga bem ao lado. Tem quatro quartos somente. 
Fica no alto do morro. 
Ao lado, o antigo estábulo da família ainda guarda as ferramentas do passado. 
Ainda não me acostumei com a largura das paredes.
Para quem vai com crianças a Casa da Ovelha é uma farra. Convém olhar o site deles para ver o cronograma das atrações e valores. 
Pode-se dar de comer, acompanhar a rotina da fazenda, passear de trator e acompanhar o pastoreio do rebanho feito pelos cães da raça Border Collie. Nós chegamos fora dos horários e também, cá entre nós, estamos bem grandinhas para isso.
A casa de madeira, toda restaurada, é bem bonita e tem uma lojinha embaixo com muita coisa gostosa, produtos a base de lanolina, queijos e carneirinhos feitos com lã de verdade.
 Essa era a que eu estava mais querendo conhecer, confesso, pelos salames, a Salumeria Caminhos de Pedra. Fiquei tão empolgada que não tirei foto da fachada, pode?  Depois me lembrei que a entrada é meio confusa pois tem ao lado uma espécie de parque de arvorismo e com alguns bichos.
Salumeria
 Importante é que provamos todos os salames e foi difícil escolher quais levar. Tem um muito bom com pimenta branca e erva cidreira. Enfim, levei três e acabei esquecendo na geladeira do hotel em Gramado. Pensa numa pessoa triste!!! Ainda bem que andamos beliscando um deles com vinhosinho à noite no hotel. 
Então, quem for, preste atenção na fachada que é uma joia de 1889, também construída com pedras de basalto e tem o "granaro" no andar de cima. As pedras nela também são unidas  com uma mistura de feno, palha de trigo e estrume de vaca.
Olhem só que jardim mais encantador!!
A Casa das Massas estava antes no interior de Farroupilha. O velho casarão de madeira, construído por volta de 1910 foi desmontado e reconstruído pelo atual proprietário. No andar superior funciona um pequeno museu onde está exposto o ferramental utilizado tradicionalmente pelos artesãos locais para trabalhar a madeira. Na cozinha da casa funciona uma fábrica de massas caseiras que produz artesanalmente o tortéi, capeletti, massas e biscoitos típicos do cardápio italiano.
Amei essa escada cheia de detalhes e suculentas.
 Percebem a nossa situação? Tudo feito ali mesmo, no dia.
Esse biscoito não conhecíamos e minha amiga acabou comprando do doce e do salgado. É muito gostoso, tipo uma massinha de pastel frita.
E mais uma paradinha para ver essa loja muito boa de pedrarias. 
A Casa da Tecelagem.
Com produtos de muito bom gosto feitos lá mesmo em teares históricos.
Casa das Cucas Vitiaceri - Linda a casa de madeira bem típica da região. O porão é muito arrumado e eles servem cestas de picnic muito apetitosas para as pessoas comerem na grama em frente ou pertinho do rio, do outro lado da estrada. Fornecem edredom e tudo. Durante a colheita da uva o turista pode passear pelos parreirais e colher uvas.
E as cucas!! Vários sabores.
Engenho d´água
Museu e Casa do Mate. Não é à toa que foi cenário de novela. 
Para visitar tem que comprar o ingresso nessa lojinha mais gaúcha impossível, bem em frente, do outro lado da estrada. Olhando com calma tem muita coisa diferente e típica ali. A moça inclusive ensina a montar a cuia com o chá e serve. Adorei o sorvete acima, feito pela avó da mocinha que nos atendeu.
Só bem tarde percebemos que não havíamos almoçado e os restaurantes maiores já não serviam mais almoço. Pergunta daqui e dali e almoçamos no Le Sorelle ainda no Caminho de Pedras, mas mais no início. 
Comemos uma lasagna deliciosa com massa fresca. A carne, ao invés de carne moída, era carne desfiada de panela. Delicia por R$ 16,00. Um achado.
 Em frente vi pela primeira vez um moinho de pedra de milho. Só não trouxe a farinha tão honesta de milho porque a essas alturas já começávamos a nos preocupar com o peso da mala. Uma geleia aqui, um pesto ali, um vinho mais ali, um drama!
No outro dia voltamos ao Caminho das Pedras especialmente para almoçar na Casa Vanni (eles fecham às quartas). É uma casa de madeira com porão de pedras regulares, construída em 1935 por Pietro Strapazzon. Atualmente pertence à família Vanni e depois de sofrer a retirada do andar superior em 1975, retomou as características originais em 1996 quando foi totalmente restaurada pelo Projeto Caminhos de Pedra. 
 Na parte de cima funciona um café.
Reparem na largura da parede!!
 O porão foi transformado em restaurante. Um dos pratos mais pedidos lá é o filé a Wellington mas no dia que fomos estavam sem luz e não poderiam assar a massa. 
 Fui no segundo prato mais conhecido de lá, esse tortei com recheio de abóbora. Divino! Achei que era muito mas comi tudo. Aff!
Sobre o poço que ainda funciona no porão, foi colocado um tampo de mesa.
 Essa é a fachada dos fundos, super agradável. O pessoal acaba tomando o café aí.
 Minha amiga curtindo a paisagem com cavalos e patinhos no fundo do restaurante. O garçom trouxe até ela a sobremesa, uma pana cota que estava maravilhosa.
Não pensem que vimos tudo não, faltou conhecer a Pousada Cantelli e a Casa Fracalossi.
 
Conclusão, essa vida dá mesmo muitas voltas. O que na época foi muito ruim para eles, a mudança do traçado da Linha Palmeiro, hoje, graças à iniciativa de pessoas geniais, acabou se tornando uma excelente fonte de renda para os descendentes dessas mesmas famílias. 
Foi um passeio muito agradável, sem o menor stress, comemos comida de verdade, fomos bem atendidas, nos sentimos seguras e felizes. Voltaria outras vezes.