Virginia Costa

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Santa Cruz Cabrália- Reserva da Jaqueira ( Pataxó)

Um dos passeios mais curiosos que já fiz foi até a Reserva Pataxó da Jaqueira, uma área de preservação ambiental indígena de 820 hectares de mata atlântica. Foi muito instrutivo e inesperado pois nem sabia da sua existência ali pertinho de Porto Seguro  . O passeio é bem organizado (R$ 35,00) e a Tati, dona da minha barraca favorita, gentilmente nos levou até lá. Passeios organizados:  pataxoes@yahoo.com.br ou  telefones (73)9991-4560/5653 / 9141-7431
Fomos recebidas por um dos índios...
  ..que nos acompanhou até um grande Kijeme (que conhecemos como oca) onde a Naiara, uma das três irmãs guerreiras responsáveis pelo que se vê hoje lá, nos fez um relato intimo da historia de seu povo. A historia é longa,triste e controversa. Mas vou me ater aqui ao passeio em si, ao interesse que tenho pelas nossas florestas, animais e por costumes diferentes e autênticos. 
Um outro índio, bem jovem, nos levou para um passeio na floresta, explicou sobre algumas árvores e mostrou como eles fazem as armadilhas. Fiquei feliz por ver que a cultura está mesmo sendo passada para as novas gerações .
Nessas horas não sei se presto atenção, se filmo, se anoto ou se tiro fotos pois gosto de saber o nome das árvores. 
Uma das mais interessantes foi essa, que tem um seiva amarela, grudenta e muito cheirosa,usada como cicatrizante. Tentei pesquisar e não vou me arriscar a dizer o nome.  
Pode-se arriscar no arco e flecha ou deixar-se pintar por eles.  A pintura é feita em festas tradicionais, como ritos de casamento, nascimento, comemorações, dança, luta, sedução, luto e proteção.
O pincel é o espinho da palmeira tucum que ela deslisa no carvão molhado (acima)
 Homens e mulheres recebem um tipo de pintura específica, de acordo com o estado civil. 
As pinturas têm diversidade de tamanho e significado, padrão a ser seguido e simbologia; a pintura do corpo funciona como uma cédula de identidade. Representa o estado de espírito diário de cada indivíduo, os bens e o sagrado.
Na cultura pataxó são usadas as cores vermelha, preta, branca e amarela retiradas da natureza, urucum, jenipapo, carvão e argila.
Me encantei com o colorido das roupas dos homens e das mulheres. Quando eles caminham faz um som gostoso das sementes penduradas e da palha de tupisai da saia. Adorei o colorido das miçangas e o acabamento fino dos enfeites com penas para cabelos.
Tem uma "lojinha" com produtos feitos por eles. Eu e minha amiga não resistimos. Algumas índias aceitam cartão. Pois é, novos tempos.No artesanato, os índios utilizam madeiras (juverana), sementes, palhas, cipós, argila, penas, bambu, além de barro. Outros são feitos de cipó, como o caçuar e o cesto. Ainda existem os que são feitos com uruba, a exemplo da peneira e o leque.
Toda esta produção artesanal é condicionada às necessidades diárias da tribo, e em outras situações, relacionadas à proteção espiritual.
No final, fomos convidadas a comer um peixe assado na folha da patioba, uma outra vegetação incrível. Essa folha em pé, quando se bate no caule dela com um pau, ela emite um som super forte que era usado como comunicação entre eles antigamente.
Ela é boa para assar peixes por que demora mais para queimar e ainda solta um tempero gostoso para a carne.  Tem que amarrar com fibra de embira para os peixes não caírem. Serviram com farinha de puba.
Todo recurso necessário para manutenção da tribo vem da venda de artesanato e do ecoturismo promovido pela Associação Pataxó Ecoturismo que completou nove anos.
Presidido por uma índia chamada Jandaia, 32, a associação recuperou mais de 4.000 palavras pataxós e lançou um livro de ervas medicinais. Acima, fotos da escolinha.
 Acesso pela BR-367 em direção a Santa Cruz Cabrália. Virar à esquerda em frente ao Barramares.
Os visitantes que queiram conhecer as aldeias precisam agendar data com a Associação Pataxó de Ecoturismo.
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A  Reserva da Jaqueira, criada em 1998, teve o nome inspirado numa velha jaqueira, quase morta, tombada no centro da aldeia, que fincou as raízes que ainda tinham seiva no solo e como um milagre natural, essa árvore “condenada” rebrotou e aos poucos voltou a produzir os seus frutos novamente. Nesse exemplo magnífico da natureza as irmãs Nitinauã, Jandaia e Naiara perceberam que a cultura adormecida do seu povo poderia sobreviver e dar bons frutos.
Todos os anos no dia 1º de agosto a comunidade da Jaqueira realiza o Araguakisã, para comemorar a data de fundação da reserva e celebrar os rituais mais importantes do povo Pataxó, o Ritual do Barro e o Casamento Tradicional. Antes da cerimônia o noivo passa por várias provas para mostrar que está pronto para sustentar a sua família e livrar a mulher de possíveis perigos. Durante todo o dia acontecem muitos rituais acompanhados de tradicional comida e bebida.
Língua Pataxó se chama Pathxôrã, da família dos Maxacali, pertencente ao tronco Macro-Jê e significa linguagem do guerreiro.
Adorei o programa e recomendo!

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