sexta-feira, 31 de julho de 2020

Hematoma Subdural Cronico. Sobrevivi.

Vou contar por que também pode servir de alerta para outras pessoas. Já caí muito mas não me lembro de ter batido a cabeça. Contei sobre meus tombos e o que mata velho AQUI.
Passeando com a família e bem indisposta
Em janeiro minhas netas, filha e genro vieram do Canadá para passar uns dias e isso era tudo que eu sonhava só que eu vinha sentindo uma preguiça enorme. Não tinha vontade de nada. Morria de remorso.
Teve chá de bebe do meu neto e fiz um enorme esforço para participar. 
Resolvia alguma coisa na rua e não via a hora de voltar para casa e me deitar de olhos fechados. Sabia que não era depressão.
Teve casamento e aniversário do meu filho e eu me sentindo indisposta. 
Plantão no stand de vendas no Shopping Colinas
Era voluntária no Gesto e no GACC mas estava indo arrastada nos últimos tempos. Odiava quando me chamavam para algum programa pois eu tinha que ter uma boa desculpa para não ir. Achei que era sinusite ou vista. Fiz todos os exames mas uma dorzinha chata persistia, meio sinusite, meio vista cansada. Fiz quatro exames diferentes de vista e até comprei óculos de Ótica. 

Tomei remédio para essa dorzinha de sinusite, não passou, estranhei, fui ao PS numa sexta, fiz RX da face, tomei remédio na veia para dor, não passou. Não justifica, disse o medico e me disse que eu teria o direito de voltar ao PS na segunda feira para investigar já que a dor não passou. Na segunda, lavei a cabeça, fiz escova, peguei um Uber e voltei ao PS. Uma médica pediu uma tomografia computadorizada do cérebro. Esse exame é feito em outra unidade. Daí precisava de um acompanhante, coisa que eu não tinha. Como eu estava tão lúcida e bem me deixaram ir para o outro hospital de ambulância desacompanhada para fazer a tal TC. Acredite se quiser, um dos enfermeiros se engraçou por mim com uma conversa de falar inglês... Estávamos indo muito bem, prosa boa, até o momento que fiz a TC e aí perdi meu último e derradeiro fã. Ele ficou assustado! Fazia tanto tempo que ninguém me paquerava!
Daí em diante foi um entra e sai da saleta em frente à sala de tomografia e não me deixaram sair. Passou um médico, depois outro e depois me aparece um anestesista. Pediram contato de alguém. Por sorte meu filho estava na cidade. Não entendi nada do que estava acontecendo só sei que quando me dei conta já estava na UTI esperando para ser operada de uma coisa que era uma dorzinha mesmo. Só uma chatice. Que exagero, gente, posso voltar outro dia?

Fiquei seis dias na UTI com uma sonda na cabeça e mais dois no quarto dividindo com uma menina fofa.

Sinceramente, o tempo todo eu pensava: Virginia, isso não te pertence. Você vai sair daqui logo. Fica tranquila. Lembra dos mergulhos em Bonito? Lembra das piraputangas? Pois é, você vai voltar para lá e vai mergulhar de novo.

Na UTI, lúcida e sem dor (o que já é uma benção), mesmo toda monitorada e sem poder me mexer muito, pude observar muito bem como funciona, ver quais enfermeiras são anjos, o tempo precioso que a burocracia tira delas, quais tem problemas em casa e tem pressa de ir embora, quais médicos a equipe respeita, onde é bom comer ali perto, qual enfermeira fala alto demais e dá receita de repolho com alho frito, os pacientes que entraram e saíram, os que sempre recebiam visita e os que ficavam solitários e calados.
Um senhorzinho estava numa UTI especial, lacrada, desde o Natal. Um casal jovem o visitava sempre. Deus permita que eu morra em casa! Assim como meu pai, minha mãe, minha irmã, tia Leiza, vovó Marianinha, etc.
Um dia chegou uma moça sentada na maca daquelas de ambulância. Ela devia ser uns quinze anos mais moça que eu. Só a vi por segundos. Ela estava gritando e dizendo que não era para estar ali, muito confusa e agressiva. Estacionaram a moça do meu lado. Só uma cortina de plástico nos separava então eu acompanhava todos os procedimentos pelos quais ela passava. Perguntei para a enfermeira mais "amiguinha" o que ela tinha. Câncer terminal. Conheço, infelizmente. Ela sofria muito cada vez que tinham que encostar nela. E gritava de dor. Era brava que só. Várias vezes todos os enfermeiros do plantão ficavam juntos só por conta dela para virá-la, por exemplo. Muito sofrimento. Nessas horas o tempo parava, ficava um suspense no ar visto que estávamos todos no mesmo barco. Todo mundo rezando para que o procedimento acabasse logo, inclusive por que atrasava o horário de visitas. Um dia ela gritou chorando: EU QUERO A MINHA MÃE! EU QUERO A MINHA MÃE ! Aí foi de doer. Eu estava indo tão bem. Precisava me lembrar da minha mãe? Também quero! E chorei. Acho que todos os internados ali engoliram em seco. 
Mas fora isso e dois dias que tive que ficar com a cabeça para baixo, foi tranquilo. 
Isso foi dia 11 de fevereiro. Estou ótima e sem queixas. Dei sorte por ser dias antes de declararem a pandemia e sorte com o neurologista de plantão, um craque acostumado a operar bebes com hidrocefalia. Uma pessoa dessas vai direto pro céu, mesmo sendo sério demais. Difícil faze-lo rir. Mas consegui, na UTI mesmo, quando ele apareceu uns quatro dias depois e eu falei que tinha tido um sonho com ele. É que ele me operou em pleno carnaval e depois não o vi mais, por dias. É claro, ele tem uma equipe com outros médicos e estava me acompanhando de longe, mas eu queria mesmo o próprio. Normal. Quando ele chegou, eu estava sentada numa cadeira. Disse que estava muito feliz em vê-lo pois tive um pesadelo onde ele aparecia de abadá, na Bahia, no meio de um bloco, mandando recado para mim numa entrevista, que voltaria só depois do carnaval e daí fiquei preocupadíssima. Juro que levou uns segundinhos até ele entender que eu senti falta dele e riu. Ele riu. Mas em seguida me mandou ficar de cabeça para baixo. Com a idade o cérebro da gente encolhe, sobra espaço e entendi que ele deveria aderir à caixa craniana se eu ficasse com a cabeça mais para baixo. Pior que foi bom mesmo. Agilizou minha saída da UTI. Percebi que teve gente que levou bronca. Parte culpa minha, decerto, que repetia o tempo todo que estava bem. Ele é bom, mas é enérgico. Antes assim.
Gente, que coisa mais louca é uma pessoa gulosa e taurina! O melhor do dia era esperar o barulhinho do carrinho da comida chegando e a visita do meu filho. Mas que comidinha gostosa! Sério mesmo. Senti falta foi de tomar café e nem me lembrei do cigarro. Só sei que a copeira colocava a bandeja no meu colo, me contava o que era e eu fazia um montinho com as mãos e engolia. Até banana comi de cabeça para baixo e bolo com calda de leite de coco. Comia de tudo. Rodrigo, além dos "para casa" (livros e cubos mágicos) me levou uma garrafinha jeitosa que dava para eu beber água sem me levantar. Resolveu. 
Até a comadre eu adorei! Que coisa mais genial. Funciona assim, os enfermeiros chegam de manhã e se apresentam. Quando era um rapaz eu pedia gentilmente para que ele trocasse com alguma colega pois eu ficaria mais à vontade. Teve um dia que vi que iria demorar e assim que ele saiu, me arrependi e gritei: Volta, Samir, vai tu mesmo! Traz a comadre!. Sem drama. O banho diário era dado pelas enfermeiras na cama. Ainda bem que o cérebro da gente nos faz esquecer essas chatices. Se a gente esquece a dor do parto, que dirá banhos e comadres!  
Bom mesmo foi na casa da minha amiga Lisbeth que preferiu cuidar de mim na casa dela depois que saí do hospital. Comida caseira, moranguinho com chantilly, tudo na bandeja, assistindo escola de samba na TV. A vida é bela! Quanto carinho recebi de tanta gente! Fazia tanto tempo que eu não era paparicada do tipo trazerem coisa na bandeja para mim. Acho que felicidade igual mesmo só quando minha mãe me trazia um queijo quente no pão francês no tostex junto com um comprimido para cólica menstrual.
Sou muito grata por cada detalhe de cada amiga que me paparicou nesse período. Geni, minha faxineira querida há 32 anos dormiu em casa dois dias e depois o Rodrigo. Outra amiga me levou ao médico e para tirar os pontos. Visitas carinhosas em casa. Depois as coisas foram se acomodando mas não vou me esquecer nunca do revezamento das minhas amigas, da forma que puderam. Nem quero falar nomes com medo de omitir alguém mas me senti muito protegida de perto e de longe, tendo até que avisar quando entrava e saía do banho. Senti de verdade muito carinho. Choro só de lembrar. Só não posso até hoje é deixar de atender o celular que o povo já acha que eu morri.
Dois meses depois quis saber o nome do que tive: hemorragia subdural crônica. Os sintomas podem ter início semanas e até meses após o trauma e variam de apenas dor de cabeça forte e progressiva até confusão mental, paralisia de um lado do corpo podendo chegar até ao coma e morte.
Daí tive coragem de colocar a mão de verdade na minha cabeça e vi que tem dois buracos no osso do meu craniozinho. Ainda tive sorte de não rasparem minha cabeça. Na minha idade, a única coisa que acho bonitinha em mim é meu cabelo e seria uma judiação raspar tudo. 
Me disseram que eu ia entrar em coma mais cedo ou mais tarde. Isso explica por que, na minha chegada, na primeira TC o rapazinho da tomografia saiu lá de dentro de onde eles ficam para se proteger, se aproximou de mim e perguntou: A senhora está me enxergando? Nem aí percebi ter alguma coisa errada. Ele era ruivinho, uma graça. Acabei fazendo umas cinco tomografias enquanto estava na UTI e depois, daí sempre chamo por ele pra dizer que ele é lindo e que eu estou viva.
Já no quarto. 
Aparentemente bati a cabeça ou levei um tranco e daí, provavelmente por causa da Aspirina Prevent, devidamente receitada por meu cardiologista para tomar uso contínuo começou um sangramento que deve ter começado meses atrás.
Quase seis meses depois, sem queixas. Me sinto produtiva e feliz mesmo com essa espada do Covid-19 pairando sobre nossas cabeças. 
 A pergunta que não quer calar: 
 - Doutor, posso beber e fumar? 
- "Dona Virginia, disso a senhora não vai morrer mais, desde que não tenha outra queda ou tranco forte."
Acabou o assunto. Fora da garantia. Ele é assim mesmo. Sem chance de ficar tricotando com ele. E não me deu alta! Tenho que esperar um ano. Avisa lá o ruivinho da tomografia que não morri, pelo menos por enquanto.
Brincando com lettering - Virginia Costa
Meu santo é muito forte mas tá pedindo umas férias. Ele bem que merece mas já avisei que vai ter que esperar o Covid-19 passar. Muita coisa poderia ter dado errado. Nasci de novo. Nunca mais posso reclamar de nada! Nadica! Preciso aprender a lição. 
De lá para cá tenho feito e vendido panos de prato com crochet que acabaram se tornando uma fonte de renda com a pandemia. Criei coragem depois de assistir ao Lufe no YouTube na Espiral de Mudanças .
Pajaki - Virginia Costa
Me arrisquei com os pajaki também. 

E coisas melhores ainda aconteceram, meu terceiro netinho nasceu! O Apolo. Coisa mais lindinha do mundo. 
E tem o bônus da minha vida que é a outra netinha, Isabeli, filha da minha filha que a vida me deu de presente nesse meio do caminho. Agora, quatro netinhos. Amém, Jesus!


terça-feira, 28 de julho de 2020

Pantanal do MS, antigamente

- Pai, to pensando em levar as crianças para conhecer o Pantanal antes da gente se mudar pro Rio. Já até arrumei um motorista. Marido não sabe, viu?
- Vai de carro não, minha filha, vai de avião. Vocês só vão ver beira de estrada e bicho atropelado. Pantanal só é bonito na TV. Vai judiar demais das crianças. Fala com o Lino ( um piloto freelancer conhecido de todos os fazendeiros) que ele te leva na fazenda do Fulano e do Ciclano que tem o que ver.
Jacarés na lagoa
Eu morava em Campo Grande. Daí chamei uma amiga, Silvia Stumpo, que topou na hora e fomos. Aproveitei uma viagem/ausencia do marido. O problema é que eu estava grávida da Leticia que hoje tem 32 anos. O Rodrigo e a Mariana não conheciam o Pantanal e eu vi que seria a ultima oportunidade deles irem para lá.
Olha a carinha de quem já está com calor!
Na fazenda do Fulano tinha um enorme ninhal de garças. Era a maternidade delas. Na lagoa embaixo tinha muitos peixes para as mamães mas também ficavam os predadores, os jacarés que esperavam os bebes caírem já de boca aberta. Vida e morte. Se errassem o primeiro voo viravam comida de jacaré. Tem uma reportagem muito boa AQUI sobre esses ninhais. ´ 

De lá fomos para outra fazenda onde tinha uma super população de jacarés. Eles tinham que nadar rápido senão as piranhas os comiam. Não é normal. Na ida o Lino voava baixo e as crianças viram veados correndo. Foi lindo. Daí pousamos numa outra fazenda que tinha um hotel roots, para não dizer outra coisa e ficamos num quarto com banheiro. O chuveiro era uma coisa inexplicável. Eu tenho um metro e meio e o chuveiro ficava na altura de um metro. Por que, meu Deus? Por que? Minhocas gigantes subiam pelos azulejos do banheiro. Gordas. Minhocuçu. Elas chegam a ter 60 cm. Um filme de terror. Não tem nada mais nojento que dividir um banho agachada de olho nelas. Dormimos de janela aberta com tela. Calor dos infernos!
Ninhal das garças ao fundo
De dia saímos numa canoa e o Rodrigo pescou várias piranhas. O canoeiro picava a piranha e usava de isca para pegar outras. Rodrigo amou aquela facilidade toda. Ele e Mariana se divertiram. Combinei com o Lino para nos buscar depois de uns dois dias. De noite o Rodrigo teve o maior febrão. Pronto. E agora? Eu, no meio do Pantanal, grávida, com filho doente sem contar para o marido. Mas, como sempre digo, Deus é pai. Não é que no dia seguinte apareceu meu primo distante, o Jacintho, num avião de seis lugares? Ele deu carona de volta pra gente para Campo Grande. Me lembro de, no voo, ficar fazendo compressa com a cuequinha molhada do Rodrigo na testa dele para baixar a febre. Mas valeu. Nem sei se as crianças se lembram mas achei que devia essa experiência para elas. 
O Jacintho foi uma paixão platônica de infância. Estudamos no mesmo Grupo Escolar em Barretos e numa festa junina a professora o escolheu para ser meu par. Quase morri de felicidade. Minha mãe não deixou por que não ficava bem dançar menino com menina. Aí morri de tristeza. Ele nunca me deu bola e perdi a única chance de estar com ele nessa festa junina. Daí ele aparece anos depois no Pantanal para me salvar, como um anjo. Mas aí já era tarde demais. Ele faleceu recentemente. Que Deus o tenha!
Quer saber mais sobre o Pantanal e MS? Mas antes passe para conhecer Campo Grande clicando AQUI .Fiz vários posts, é só clicar sobre o tema : Fauna do PantanalForte CoimbraFauna e flora de BonitoRotina em fazenda no PantanalRio da Prata e Rio Sucuri, qual o melhor?, Passeando pela cidade de Bonito e por aí vai, gente. Entrem pelo índice na versão para web se estiverem no celular. 

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Viagens com minha mãe

Quando pequena nos mudamos de Barretos para Dourados duas vezes. Na primeira vez eu tinha 5 anos e depois uns 12 anos.
Almoço em família na casa da vovó
Era uma tristeza pois eu tinha amigos e uma família grande e alegre demais em Barretos. Meu avô tocava violão, minha avó tocava piano assim como as tias. Minha mãe sentia muita falta de tudo isso. Como meu pai não se importava, queria mais é sossego para trabalhar, ela fez várias viagens para visitar a mãe em Barretos com os três filhos num Fusca. junho 2015 – Legal
Era muito corajosa pois me lembro de meu pai encomendando uma carteira de motorista dela pelo telefone.
Nós três. Eu sou a mais velha
Bom, ela dirigindo, uma empregada no banco da frente e nós três nos estapeando atrás. 
Naquela época não havia ponte que separasse Mato Grosso de São Paulo. Tinha sim uma balsa que fazia a travessia dos carros no rio Paraná e havia sempre uma longa fila de caminhões esperando. Questão de sorte e às vezes tínhamos que nos hospedar em modestíssimos hotéis em postos de gasolina. Lembro-me da minha mãe cobrindo os vitros do quarto com aqueles cobertores imundos pois era o maior vai e vem de caminhoneiros pelo corredor externo durante a noite e o povo não fazia a menor cerimonia, espiava mesmo pela janela. Calorão dos infernos. Mamãe mandava a gente usar havaianas no banho e proibia comer carne na viagem. Sem opções, comíamos aquele macarrão super cozido só com molho de tomate. Nem olhem para a salsicha!, dizia ela. Pastel de queijo podia. 
Almoço na casa da vovó. Reparem que não tem criança na mesa.
Tínhamos uma vida humilde na época, talvez eu nunca tivesse ficado em um hotel antes mas percebia que aquele lugar não era dos melhores. Já tinha memórias dos lençóis limpinhos cheirando Phebo de casa e da minha própria cama na casa da vovó Marianinha onde dormi a maior parte da minha infância.
Casa da vovó em Barretos, meu quarto era bem na curva. 
Minha cama na casa da vovó tinha um colchão de capim que de vez em quando dava umas espetadas. O travesseiro era de paina colhida pelas tias na fazenda do tio Joãozinho. Era um evento na época das painas. Eu até pouco tempo conseguia esses travesseiros mas não tenho encontrado mais. Hoje parece que todo mundo é alérgico a tudo. Só sei que eu amava dormir ali na casa da vovó. O "meu" quarto tinha passagem pelo dela, como era comum naquele tempo e ela e o vovô tinham penico debaixo da cama. Nem precisava pois tinha banheiro na casa. Era um velho hábito mesmo.

 Eu e meus irmãos brigávamos muito no carro, claro. Dias e mais dias comendo a mesma coisa, sem conforto indo de um lugar para outro sem saber por que. Criança não apitava nada. 
A matula tradicional era pão de forma com patê de sardinha. O pão de forma de antigamente grudava no céu da boca. Era difícil de engolir a seco. Todo mundo ficava soluçando a viagem toda. 
No lado de Mato Grosso não tinha asfalto, era pedregulho, um caminho com uma poeira vermelha sem fim. Era um tal de fechar o vidro toda hora, manualmente, claro. Pelo menos em Mato Grosso a gente podia pedir uma chipa num bolicho. Bolicho é um pequeno comércio de beira da estrada com banheiro de "casinha", já viu, né? Essas casinhas nunca tinham luz e a gente só não caia dentro do buraco por que elas tem um tamanho padrão e Deus é pai. A chipa era normalmente tão velha e dura que dava para ir distraindo com uma só, chupando, até Dourados. A chipa é a prima pobre do pão de queijo e não levava queijo. As de hoje são deliciosas mas antes eram sem graça como espaguete de abobrinha. 
Na boa, não queria comentar isso mas quando vejo as crianças de hoje no carro, seguras em suas cadeirinhas com um Tablet na mão e os pais ainda se matando tanto para entretê-las, fico com pena. Dos pais, claro. 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O que mata velho ?

Reza a lenda que é gripe e tombo. Tiro e queda. Mas eu acrescentaria que além desses dois, ainda tem o viver no passado. 
Cavalos de Viena
Por uma questão de sobrevivência, tento mentalizar que meus antepassados próximos sobreviveram à gripe espanhola e que por isso tenho uma certa imunidade. Juro, só me lembro de uma gripe na minha vida, chamada Vitoria, há uns 40 anos quando estive em Viena. Não achei nada no Google sobre ela mas com minha péssima memória posso afirmar que se eu me lembro dela e que se ela teve até nome, pode ter certeza de que existiu. 
Enfim, eu sonhava em assistir um show dos cavalos da Escola Espanhola de Equitação de Viena e quando fui fazer um intercambio na Alemanha, organizei para ir para Viena. Só não sabia, naquele tempo, que era para ter reservado o espetáculo seis meses antes. Estamos falando de 40 anos atras sem internet. Nem sei como cheguei na Alemanha, imagine na Áustria. Me lembro que fui de trem com uma brasileira e que logo que chegamos em Viena já nos sentimos mal e que ficamos uns dois ou três dias no hotel sem conseguirmos falar nem na recepção do hotel, tamanha fraqueza. Eu não tinha forças para ir à farmácia e nem ligar para ninguém. Enfim, como Deus é paizão, os dias passaram, melhoramos e descobri que poderia ver pelo menos o ensaio dos tais cavalos. Me lembro perfeitamente de estar com muita febre no recinto lindo onde eles se apresentam, meio que pendurada, encostada numa coluna enorme, mas assisti o ensaio deles. Foi lindo. ✅ Sonho realizado, bem ou mal.
Sachertorte - Wikipedia
Sachertorte
Apesar da gripe, também consegui ir até à famosa confeitaria onde servem a conhecida Sachertorte. ✅ Só faltava mesmo participar de um baile com as valsas do Strauss, hehehe. Pior do que essa gripe, acho que não vai ter. E não me lembro de outra até hoje, só resfriadinho.
Tá, segunda coisa que mata velho: tombo. Aí eu sou campeã! Que droga! Me lembro de todos os meus tombos mas o pior deles, o que quase me matou recentemente, eu não me lembro. 
Na primeira semana quando me mudei para o apartamento onde moro hoje, saí toda faceira, com roupa de atleta para caminhar na praça bem pertinho. Na segunda volta tropecei e...me lembro tanto...ia cair..de cara no chão...tenho que escolher onde vou me machucar menos, na pista ou na terra? Aterrissei na terra. Me lembro de planar escolhendo onde me esborrachar. Nosso cérebro é incrível. Deu tempo de escolher. Daí, claro, veio gente me acudir, uma senhora mais antiga que eu e um moço. Tudo bem. Voltei para casa chorando, com ódio da praça, do apartamento, de mim, do mundo. Como é bom chorar de dó da gente, né? Eu choro mesmo quando caio ou levo choque, mas é pelo susto. 
Joelhos bem ralados, sangrando mesmo, a calça foi direto para o lixo. Foi feio, mas nenhuma tragédia. Acontece. A raiz das árvores da praça crescem e criam desníveis na calçada. Nada a ver com minha capacidade ou idade. Me perdoei, perdoei a praça e fiquei mais atenta. Fizemos as pazes.
Cidade do Mexico
Daí, na Cidade do México, na Praça do Zocalo, numa viagem que fiz sozinha, num lugar que já havia estado antes, fui rezar para minha santa preferida, Nossa Senhora de Guadalupe.
Nossa Senhora de Guadalupe
Saí da igreja feliz e faceira e ploft bum, me estatelei no chão. Desta vez nem tive como escolher onde cair. Veio uma policial e mais um moço para me acudir. Uma senhora com bengala me disse meio brava: Você tinha que estar usando uma dessas! Pode isso? Eu fiquei mais preocupada com minha pochete com o passaporte e dinheiro do que com meu tombo. Desta vez mal ralei o joelho mas andei dois quarteirões bem chateada pensando em como estava ficando velha, como minhas pernas estavam falhando e pensei em tudo de ruim que poderia ter acontecido se eu tivesse quebrado algum pedaço, onde que eu estava com a ideia de viajar sozinha, esse tempo já acabou, melhor ficar quieta em casa, que mundo perigoso é esse, meu seguro de viagem, que pretensão a minha, coitada de mim. Daí cheguei no hotel e vi que a sandália era muito velha, mas velha mesmo de abrir o bico e causar acidente. Foi para o lixo, assim como aquela calça do outro tombo. Tá vendo só? Daí passou toda a minha tristeza e aproveitei a Cidade do Mexico como se deve e esqueci tudo.

Nesse meio tempo, meu filho me deu uma bicicleta cor de rosa, vintage e com cestinha. Amei. Claro, customizei a cestinha com passarinhos que fiz de feltro e mais um punhado de coisinhas. Ficou mais linda ainda. Meu filho me fez jurar que eu usaria TODOS os apetrechos de segurança e assim fiz. No primeiro passeio já calculei mal uma manobra e capotei justo na frente de uma academia. Veio o moço atlético gato .Tudo bem? Tudo bem. Desta vez nem chorei. Os tais apetrechos de segurança me salvaram mesmo. Principalmente no cotovelo. Achei o máximo!
Lápis de cor e canetinha, Virginia Costa
Também já caí do sofá dormindo e quebrei os dois pés em ocasiões diferentes. Qual é o meu problema?
Até desenvolvi essa altíssima tecnologia. Você coloca seu whisky, baldinho de gelo, copo e água. O caixotinho tem rodinhas e você vai empurrando ele com a bengala até o sofá. kakaka
Agora estou no meio da pandemia, saio umas três vezes por semana para passear, tomar um solzinho, nem me preocupo com emagrecer, é só para não enlouquecer mesmo. 
Quando eu saio para passear geralmente levo uma sacola feiosa de TNT, bem levinha (dá para lavar sempre mas é uma feiura) e uma tesoura para trazer da rua umas folhagens. Ah, e outra coisa que aprendi, velho tem que sair com cartão do convênio. Nunca se sabe, hehehe. Trago galhos mesmo das árvores de rua, não mexo no jardim dos outros. Nesse dia eu tinha cortado galhos de chorão ( eu adoro o cheiro). 
Na volta passei pelo estacionamento do Carrefour, toda alegrinha, andando rápido e olhando para as árvores e folhas secas que inventei de bordar ou pintar. Enfim, capotei de novo. Veio o guarda de moto e mais um moço para acudir a velhinha estatelada no chão. Quer que eu chame o resgate?  diz o guarda na moto. Essas empresas grandes morrem de medo de processos. Nesse tombo eu já caí feito ninja, cuidando para não bater a cabeça. O outro moço, me ajudando e juntando os galhos de chorão. Ai que vergonha! Eu falava: Moço, não precisa, deixa! Mas ele juntou tudo na minha sacola. Não deve ter entendido nada. Eu vi que estava bem. De novo, voltei para casa chorando, joelho bem ralado. Não perdi a calça dessa vez, ela até protegeu.
Perigo para qualquer um
Hoje estive lá e tirei uma foto de onde tropecei. Não foi falta de coordenação, qualquer um poderia tropeçar ali. 
Óleo sobre tela, Virginia Costa
Mas o que eu mencionei no começo, o viver no passado, acho que é o mais perigoso. Ficar reclamando de como as coisas eram mais simples, reclamar da tecnologia, não querer usar as novidades tipo internet banking, ficar olhando fotos dos bons tempos do passado quando a família se reunia, ver nessas fotos as pessoas que amamos e que já se foram, não acho isso bom para a cabeça. Pelo menos não agora. Tento mudar mesmo é o presente, cultivar e conviver com pessoas que estão por perto. Ser presente para essas pessoas que vivem aqui e agora e tentar criar novas fotos de encontros felizes. São essas pessoas que me ajudaram em todos os tombos. Essas pessoas que aqui estão é que me importam. Não posso falhar com elas. É no presente que posso sentir gratidão pelo meu teto, minha comida, por cada momento precioso que tenho com meu netinho que mora perto. Não vou pensar em onde ele estará no futuro nem onde vou morar. 
Preocupar-se com o futuro é absolutamente ingrato e uma causa perdida. A gente não manda nada. Uma tropeçada e lá se vão nossos planos de uma viagem, por exemplo. Uma bobagem dita por um politico qualquer e lá se vão nossas finanças. Mas coisas boas acontecem também! 
E sobre esse vírus que prefiro nem falar o nome? Sem querer menosprezá-lo, esse é o menor dos nossos problemas. Outros virão. Mas se pensarmos no dia de hoje como "é o que temos para o momento", aceitar, uma hora isso vai acabar, não é?
Minha amiga Lisbete e eu viajamos muito juntas e já entramos em várias frias daquelas de hotéis que parecem bonitinhos e baratos. Num deles, em Porto Seguro, tinha ratos que passeavam a noite pela área da piscina. Fala sério! Que nojo!!!! Daí, fazer o que? Chorar? Voltar para casa? Acontece. Também, nessas horas você descobre as boas companheiras do estradão. Em resumo, só me lembro do tanto que nos divertimos e das coisas lindas que vimos por lá, da temperatura da água, dos coqueiros. Só alegria. É assim que tento me convencer de que devo tocar a vida. Olhe para outro lado.
Ratos, (inclusive o rato Homem) vão cruzar meu caminho ocasionalmente mas nem por isso vou deixar de viajar, ficar preocupada com eles ou vou querer deixar de viver, afinal, sou taurina e teimosa. Tornei essa teimosia numa vantagem. Mesmo que eu leve outros tombos tenho que me apegar ao pensamento de que tenho que me levantar rápido, reclamar pouco, fazer menos drama, xingar menos ainda (espanta os anjos) e achar um meio termo, aceitar essas minhas novas limitações, me adaptar, mudar de estratégia.
Meu filho, que é aluno da Nova Acrópole, tem tentado demais me "iluminar", digamos assim. Eu tenho preguiça danada de ler tudo que ele me dá para ler mas adoro ouvi-lo. Ele tem estado tão seguro, tão equilibrado numa época que o futuro dele mesmo está tão incerto. Daí já comecei a olhar para a filosofia com outros olhos, já que vi um exemplo na prática. Um dos livros que ele me deu enquanto estava na UTI foi Saber Envelhecer, do Cícero. Cá entre nós, fazer o que numa UTI a não ser esperar pela comida? Bom, o livro era pequeno e não o li todo ainda por que além do mais ele me trazia aqueles cubos mágicos. Acho que ele queria ter certeza de que eu estava boa da cabeça. Desse livro eu entendi que os grandes velhos guerreiros na antiguidade, eram respeitados e procurados, mesmo estando acamados ou inválidos de alguma forma, por que eles tinham a sabedoria das estratégias de uma guerra. Não esperavam deles que fossem à luta mas os respeitavam e queriam saber sua opinião. O saber e a intervenção deles era precioso. Nessas horas não tem como não sentir falta de pai e mãe. Eles sempre tinham um ponto de vista sábio e me ajudaram muito. Hoje estou sem guru. Guruless. Acabei de inventar uma palavra. Todos os meus ídolos caíram, tanta enganação que a gente quase perde a fé na humanidade mas para, para. Para de Gardel! Voltando para o Cícero, tem uma coisa que achei ótima, sobre sexo na velhice. Gente, ele fala que temos que ver a queda da libido como uma libertação. Pior que é verdade. Quanta bobagem não fizemos e quantas decisões erradas já não tomamos por causa do sexo? Pare e pense. Não é? Na velhice o sexo não tem aquele peso de antes. Então, coloca aí na listinha: Não entrar mais em fria por causa do sexo.✅
Só para registrar, eu tenho mais duas filhas incríveis, sobre as quais vou contar outro dia. Pense em duas guerreiras! 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Pajaki - Polônia

Lá pelos anos de 1800, durante o inverno, as mulheres na Polônia ficavam assim como nós, de castigo em casa, inventando coisa para fazer. Assim como nós hoje, sem poder sair para comprar material de artesanato, elas faziam esses enfeites para casa chamados de pajaki. 
Tinham pouca coisa disponível mas eram muito criativas. A ideia era enfeitar as festas que viriam como Páscoa, Natal, casamentos, batizados e aniversários. Uma queria fazer mais bonito que a outra. 
Usavam grão de bico como miçanga, renda, barbante, papeis coloridos, ramos ocos do talo do trigo e do centeio como se fossem canudos, palha e sementes para formar esse tipo de arandela, candelabro, não sei que nome usar para traduzir. Ao pé da letra, o significado de
pajaki é aranha de palha. 
Esse foi o primeiro que fiz, antes da pandemia. A ideia é formar uma teia apetitosa e atraente só que nela se prendem flores de papel e não insetos. Só sei que me apaixonei pela ideia na primeira vez que vi e quis experimentar. 

Esse foi o segundo. Já tive que improvisar. Queria colocar pompons mas já não tenho mais tantas lãs. É uma tradição muito antiga. Supostamente, essas "teias" trazem sorte e felicidade. Eles acham que não se deve tirar as verdadeiras teias de aranhas e tem o maior respeito por elas. Tirá-las traria má sorte. 
Peguei sementes na rua e deixei de quarentena antes de usar.
Os pajaki que vi, mais "roots" realmente formam uma teia com canudinhos. É muito interessante. 
O nome pajaki se pronuncia em português totalmente diferente do que está escrito. A propósito, nunca estive na Polônia. 
Há variedades regionais para se criar um pajaki mas o normal é se usar o que há disponível naturalmente nos vilarejos no começo da primavera.

Para criar um pajaki é necessário paciência, calma no coração e mãos firmes. Tô dentro. Levei três dias para fazer esse ultimo mas as mulheres da época levavam semanas por que o autentico mesmo é bem mais elaborado, com pom pons de papel de seda curvados um por um etc, pétala por pétala, um servicinho respeitável. Usei retalhos de papel de parede, canudinho, sementes e favas que achei na rua e cortador de papel (humm, aí foi covardia). Uma coisa temos em comum, fiz o que pude com o que eu tinha disponível só que séculos depois, durante uma quarentena punk inimaginável, como um inverno sem fim.

Existem outros pajakis semelhantes em países como Lituânia, Ucrânia e Finlândia mas uma das pessoas mais craques nessa arte, a Karolina Merska afirma que os mais decorativos são da Polônia.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Filmes Netflix que vão te fazer esquecer do Covid-19

Muita gente me pede sugestões de filmes e agora esse pessoal que não podia assistir por falta de tempo vai poder curtir e espairecer um pouco. Algumas sugestões são óbvias para os mais antigos no Netflix mas como disse, tem muita gente que não tinha tempo. Todos esses eu gostei demais. Prepare a pipoca!

Suspense e ação
Breaking Bad - Série, um clássico. Pai de família no aperto resolve vender anfetamina.
La Reina del Sur - Série mexicana sobre tráfico de drogas. Marido traficante morre e a mulher assume. 

Espírita/ Religião
Milagres do Paraíso- filme
Um Porto Seguro- filme
Dois Papas- filme
Madalena - Série

Investigação
Don´t Fuck With Cats - Alguém começa a matar uns gatinhos online e um grupo de nerds assume a investigação. Três ou quatro episódios. Verídico.
The Assassination od Gianni Versace- Série curta sobre como e por que aconteceu o assassinato do Gianni Versace. Mesclam cenas da vida real.
Sherlock - Série
Sully - Baseado em fatos reais. Sobre aquele avião que caiu no rio Hudson em Nova York.

Comédias fofas
O Estagiário- Com Robert de Niro e aquela fofa que fez O Diabo Veste Prada.
Thi Mai - Filme espanhol.
Queen - Filme indiano, começa devagar mas depois o bicho pega.
Grace and Frankie - Série. Jane Fonda mais linda que nunca.
O Método Kominsky - Michel Douglas é um professor de teatro e enfrenta problemas da idade.
Que Mal Eu Fiz a Deus - Filme francês, trata das diferenças culturais de forma bem humorada.
Ruth & Alex
A Proposta, com Sandra Bullock
Doc Martin - Série sobre um medico muito mal humorado que teve que mudar para um vilarejo à beira mar. Pena que só tem uma temporada disponível.
Anne With an E - Série que retrata com perfeição a vida de antigamente de onde a gente nunca deveria ter saído. A atriz que faz a mãe adotiva dela é espetacular.

Filmes que dão fome
Chocolate - Série coreana bem ingenua, legal para conhecer a cultura deles. Outra série coreana no mesmo estilo é Pousando no Amor.
Restaurantes em Risco - Equipe ajuda restaurantes falidos pelo mundo. Tem decoração e viagem.

Espionagem
O Tempo entre Costuras- Série

Tribunal 
Como defender um assassino - Série sobre uma professora de direito que acaba envolvendo os alunos numa série de encrencas sérias.

Roubo
A Casa de Papel - Série
Operação Fronteira - Filme

Filmes Ótimos
Lion, Uma jornada para casa 
O livro de Henry
The Fundamentals of Caring, no estilo do Intocáveis (já saiu do Netflix.
Antes de Partir 
O Menino Que Descobriu O Vento

Para ver com crianças
A menina e o leão
Crônicas de Natal

Decoração - 
Reforme na Baixa

História
The Crown

Para quem tem outras alternativas de ver filmes, procure 100 mile Journey que não está mais no Netflix e é um dos melhores que já vi.

terça-feira, 31 de março de 2020

Covid-19 e os velhinhos!

Óleo sobre tela- Virginia Costa
Ninguém nos entende! Velho tem manias sim. A gente não gosta de pedir favor, muito menos para os filhos. Vamos ter muito tempo para isso, infelizmente.
Velho também ama e valoriza a independência, o ir e vir e principalmente, escolher os próprios legumes e frutas. Levei uma vida para aprender que fruta boa tem que ser pequena e ter perfume. Levou tempo fazer amizade com a moça da farmácia e o rapazinho da padaria. Investimento de tempo e simpatia. É nosso quintal. De repente as regras mudam e querem que usemos delivery. Preparar a própria comida com os alimentos que a gente escolheu para comer na hora que a gente quer é parte dessa independência. Não gosto nem que sirvam meu prato. Não morri ainda e nem estou caducando. Velho também gosta de ir ao banco, às vezes só para ver o extrato. Pois é. Tá bom, não é meu caso ainda, mas entendo. Uma das minhas ex sogras passou dez dias na minha casa e me fazia leva-la ao banco todos os dias só para tirar o extrato. Ela não gastou nada mas precisava ir lá na CEF. É ilusão de controle da situação. Tudo é passeio e também uma forma de colocar o pé no barranco já que a canoa está para afundar a qualquer instante. 
Óleo sobre tela- Virginia Costa. O Pequeno Príncipe
A gente sabe sim sobre a importância da quarentena e podem ter certeza de que todas as pequenas saídas são muito estudadas, cada passo, afinal repetem o tempo todo que morreremos primeiro, certo? Portanto, se virem um velhinho furtivo de sacolinha na rua, não pense que ele é teimoso por estar descumprindo a reclusão. Ele pensou muito antes de sair e pode ter certeza de que está com medo. Por outro lado, caminhar para nós é vital e tomar sol também. É remédio igual aqueles da farmácia, só que de graça. Solidão e depressão matam também.  
Aqui de cima da minha gaiola, num prédio, fiquei observando o rapaz que veio me trazer uns legumes. Ele parou o caminhão com os caixotes na carroceria lá embaixo e eu de olho. Vi quando ele colocou o dedo na boca para umedecer a sacolinha para por os legumes. Daí repetiu nas outras duas sacolas. Estão vendo? Não tem garantia nenhuma. Meu recém descoberto amor pelo delivery acabou aí. Sorte que eu vi e desci com uma luva improvisada para pegar as sacolas. Nem reclamei. O pobre homem precisa do emprego e eu precisava da comida. Daí foi aquela função para desinfetar tudo. Trouxe cenouras enormes que eu jamais escolheria, alho mofado, um horror. Repito, é o que nos resta, a ilusão de que não perdemos o comando das nossas vidas. Me deixem fazer minhas próprias compras!
Dizem que vamos nos infectar mais cedo ou mais tarde. Todos. Rezo para que seja mais tarde, tipo penúltima da fila como era a chamada por ordem alfabética no primário: Vera, Virginia e Zoraide.
Meu filho diz que tenho que me preparar para enfrentar esse inimigo fortalecendo minha imunidade e deixando de ler tantas notícias ruins. Nosso cérebro não está preparado para absorver tanta informação. Ele tem razão, já li o bastante. Sou meio traumatizada com a desinformação porque devo ter sido a última brasileira a saber que o Tancredo morreu. Nenhum aluno apareceu na minha aula de alemão. Só entendi depois.
Crochet - Fiz 10 panos de prato desses. Agora acabou o material.
Não quero fazer yoga, nem exercício e nem meditação. Não gosto e não vai ser agora com esse humor todo que vou gostar. Prefiro Netflix, crochet, desenhar em cerâmica, vídeos espíritas e filosóficos da Nova Acrópole. Cada um foge da assustadora realidade como pode. 
Nem beber eu posso. No dia 11 de fevereiro descobri que tinha uma hemorragia maluca na cabeça e fui operada às pressas. O primeiro caso de corana vírus no Brasil foi reportado dia 24. Foi daquelas cirurgias sérias, no meio do cérebro. Dois cortes como esse da imagem acima. Fiquei 6 dias na UTI e dois no quarto. Ia entrar em coma e achava que era sinusite. Amigas que são anjos, além do meu filho, me ajudaram a sair dessa trazendo comida e me monitoraram por um tempo. Escapei sem sequelas! Ufa! Daí fiquei com medo de andar na rua e de dirigir. Sensação de equilibrar um aquário cheio de água na cabeça. Diz o médico que não vou morrer disso, a não ser que eu bata a cabeça ou leve um tranco. Resumindo, minha quarentena começou bem antes. 
Não me sinto só mas morro de saudade das minhas netas. Gosto de morar comigo mas eu era bem mais divertida. Por tudo isso peço que pensem bem antes de criticar os velhinhos na rua. Ninguém sabe o tamanho da solidão deles, não sabemos pelo que passaram, se há pessoas que olham por eles e nem quanto tempo terão. 
O Pequeno Príncipe - óleo sobre tela- Virginia Costa
A propósito, tenho também duas filhas que moram no Canadá numa realidade totalmente diferente da nossa, ambas trabalhando normalmente. 
E tem ainda um netinho que está para nascer a qualquer momento. Será que vou poder conhece-lo? E a vontade natural e incontrolável que temos de pegar e cheirar nossos bebes? Como vai ser? Que planeta é esse que o aguarda?
Para não enlouquecer acompanho esse site e fico de olho na penúltima coluna da direita que mostra o numero de mortes por milhão de habitante. Aí dá para perceber que o mundo não está acabando. 
E rezando para que o raio não caia duas vezes na minha cabeça penso no que dizia minha mãe: Muito ajuda quem não atrapalha. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Restaurante Vivá em Taubaté

Restaurante Vivá, Taubaté
Para mim foi novidade. Um restaurante numa casa linda à sombra de enormes flamboyants e jaboticabeiras.
O Vivá fica no Alto do Cristo a 2 minutos da Dutra.
A propriedade pertence à família desde 1950 mas o restaurante é mais recente.
O maitre Sargento foi muito atencioso e me mostrou tudo.
Tem até o túnel do Harry Potter como passagem para um playground.
Na brinquedoteca com monitoras as crianças fazem smooth.
Tudo fresquinho com ar condicionado.
Quem pode com tanta fofura?
Essa cristaleira tem 130 anos.
Tinha até uma figureira demonstrando essa arte exclusiva de Taubaté. Eu contei AQUI sobre elas. 
É restaurante bom para comemorar alguma coisa, para eventos corporativos, casamentos, aniversários etc.
Uma lembrança feliz vai ficar para sempre no meu coração.
No dia que fui estava lá um musico chamado Serginho que é um exímio violonista. O restaurante prima pela escolha dos músicos, isso eu sabia antes de conhecer o restaurante.
Agora vamos ao que interessa, as criações do Chef Gaudino.
Camembert no Restaurante Vivá, Taubaté
Olhe só esse camembert frito de entrada!
Massa gratinada, Restaurante Vivá, Taubaté
Os pratos individuais variam de R$ 60,00 a R$ 120,00. 
Além do verde das árvores lindas e da sombra, adorei que tem vários ambientes independentes.

Risotto de frutos do mar no Restaurante Vivá, Taubaté
Dê uma olhada no site deles AQUI antes de ir para checar os horários de atendimento.