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As Roupas de Frida: Um Legado em Detalhes

Museu Casa Kahlo, Cidade do México.

Visitar a Casa Azul (Museu Frida Kahlo) e o Museu Casa Kahlo, o refúgio familiar, um museu mais recente instalado em outra casa ligada à família da artista — foi uma experiência marcante. O Museu Casa Kahlo foi a casa da mãe, sabe?

Na Casa Kahlo, Frida buscava tranquilidade. Um refúgio mesmo. Tinha um sótão. Foi ali que pude conhecer de fato seu cantinho, seus segredos, ver todos os seus recuerdos.

E não é que ela quase era uma acumuladora? Guardava várias lembranças, tinha coleções de souvenirs de viagens, era curiosa — tinha até lupas para observar asas de borboletas.

Que figurinha! Que danada para a época! E o lugar, fisicamente, era perfeito para isso: a casa dos pais. 

Roupa (huipil) de Frida Kahlo
Meu foco foi conhecer de perto o guarda-roupa da Frida porque ali a roupa deixa de ser vestimenta e passa a ser linguagem. Acabou sendo uma experiência emocional, pois adoro bordados. Por outro lado, foi desafiador fotografar devido à penumbra necessária para preservar as peças históricas. Só soube disso depois. Na hora fiquei bem aborrecida, pois queria registrar os detalhes. As fotos ficaram mais escuras, mas isso conversa com a ideia de preservação, de tempo, de silêncio — exatamente como essas roupas chegaram até nós.

Huipil usado por Frida nos últimos anos. Amplo, bordado, pensado para o corpo ferido — e ainda assim cheio de cor.
Para Frida, a vestimenta era uma "decisão de ser ela mesma". Ela construiu uma identidade visual baseada no traje de Tehuana, unindo conforto e estética.
As roupas amplas e saias longas não eram apenas escolhas de estilo: eram ferramentas estratégicas para ocultar sequelas físicas (como as da poliomielite na infância) e acomodar os coletes ortopédicos que ela foi obrigada a usar após um grave acidente na juventude.
Huipiles (blusas folgadas)
Devido a este acidente, ela passou por mais de 30 cirurgias ao longo da vida. Imaginem o sofrimento dessa mulher! 
É fascinante saber que esse acervo ficou trancado por 50 anos a pedido de Diego Rivera. Por que será? Só foi revelado ao público em 2004. 
Ao observar as peças de perto, notei manchas de tinta, queimadinhas de cigarro e pequenas marcas de uso. Frida não apenas usava essas roupas; ela vivia, pintava e enfrentava suas dores usando-as. 
Cada peça é uma extensão de sua resistência e força. E eu vi um filme ou documentário onde ela entrou para uma exposição na Galería de Arte Contemporáneo, na Cidade do México, em 1953. Pensem bem: eu nasci em 1955. 
Frida estava gravemente doente e proibida pelos médicos de sair da cama. Mesmo assim, ela chegou de ambulância e foi colocada em sua própria cama de dossel, no centro da galeria, onde recebeu os convidados. Há relatos contemporâneos de que ela estava “muito bem arrumada”, com maquiagem, joias e trajes tradicionais mexicanos, coerentes com seu estilo habitual, mesmo estando deitada. As fotografias e descrições da noite não identificam o traje com precisão museológica (como número de inventário, data exata de uso ou nome do vestido). O que os pesquisadores afirmam é que Frida frequentemente usava vestidos do estilo tehuana nessa fase da vida, tanto em público quanto em autorretratos. Muitos dos vestidos expostos hoje no Museu Frida Kahlo (Casa Azul) e em exposições itinerantes pertencem a esse mesmo período final de sua vida. Alguns desses vestidos podem ser semelhantes ou até contemporâneos, mas os museus geralmente evitam afirmar que “este foi o vestido da noite de 1953” sem documentação direta. Ou seja, não sei qual dos vestidos que vi ela usou, nem se era um deles, mas achei esta cena muito marcante. Na abertura de sua exposição em 1953, Frida ainda não havia passado pela amputação da perna direita, que ocorreria meses depois. Mesmo assim, seu corpo já era atravessado por décadas de dor e suas roupas funcionavam como linguagem, proteção e afirmação.

Colete ortopédico de Frida Kahlo
O estilo de Frida Kahlo transcendeu o tempo e o México. É admirável. Até hoje ela inspira estilistas. Jean Paul Gaultier foi um que dedicou sua coleção de primavera/verão de 1998 inteiramente à artista.

Gaultier explorou a estética de Frida ao misturar corsets rígidos e elementos que aludiam diretamente à sua dor crônica, transformando seu sofrimento físico em alta-costura e reafirmando o poder de sua imagem como símbolo de originalidade e força. 
Essas blusas, que acho que a gente chama de "batas" no Brasil, são chamadas de huipil. O huipil é uma túnica tradicional indígena usada por mulheres no México há mais de mil anos. Veio do termo náuatle huipilli, que significa “blusa ou vestido decorado”. Feito artesanalmente em algodão ou lã, muitas vezes em tear de cintura e com bordados coloridos e simbólicos, ele expressa a identidade cultural, a comunidade e até o estado civil de quem o veste. Cada região possui estilos próprios, como os do Istmo de Tehuantepec e de Oaxaca, e a peça ganhou reconhecimento internacional ao ser usada por Frida Kahlo. Huipiles autênticos são feitos à mão e podem levar meses para serem concluídos. Independentemente de opiniões sobre seu estilo de vida, é impossível negar que Frida Kahlo foi uma mestra em transformar limitações em beleza.

Ela criou um estilo autêntico e feminino que prestigia as artesãs de seu país e que, décadas depois, continua a inspirar globalmente a moda. 
Roupa de Frida Kahlo
As fotos ficaram mais escuras do que eu gostaria devido às condições de preservação do museu, mas espero que transmitam um pouco da aura que senti ao estar tão perto da história dela.
Vestido de Frida Kahlo, Cidade do México.
É muito importante comprar os ingressos com antecedência para ambos os museus. Eu fiz um post em 2009 sobre ela que acho que merece uma visita para entendermos melhor o tipo de mulher de quem estamos falando. Clique AQUI .É só uma parte da história desta mulher valente. Depois de visitar os dois museus, agora fiquei mais curiosa ainda. Que exemplo! 
Para quem quiser ver mais sobre esta conexão entre a moda de Gaultier e a artista, deixo aqui este vídeo: Gaultier e a inspiração em Frida. Este vídeo é relevante, pois mostra como a coleção de Gaultier em 1998 interpretou a dor e o estilo icônico de Frida Kahlo nas passarelas.

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