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Lima - Doces Limenhos e Frutas

Não sabia que os limenhos gostavam tanto de doces. Vi umas três feiras de doces com as típicas barraquinhas durante um só fim de semana. Embora não seja fã, adoro experimentar e estava curiosa pelo suspiro limeño, talvez pelo nome, pelas descrições e pela história: " Branco como a neve e macio como uma nuvem, sempre fofinho e com notas de canela e merengue". " O que torna esta requintada sobremesa especial e única é o manjar blanco, um creme espesso composto de leite, amêndoas e açúcar cuja origem é medieval e foi introduzido por viajantes da Espanha. Outro ingrediente que nos faz suspirar com o seu sabor é o inevitável merengue, que lhe confere a doçura fina que o caracteriza" "Toque o céu com o suspiro a limeña".
suspiro limeño, Lima, Peru. 
Aí é covardia. 
Dá ou não vontade de provar? Dizem que a sobremesa foi criada há dois séculos e seu nome original era Manjar Real del Perú . No entanto, conta a história que o escritor e poeta José Gálvez Barrenechea, muito inspirado depois de experimentar a sobremesa, a batizaria com o nome atual por ser macio e doce como o suspiro de uma mulher.
Encontrei um dos lugares pesquisados como referência de um bom, o Anita Dulces Limeños. Fica em frente ao Parque Kennedy. Uma portinha, com fila. Bom sinal. Sob meu olhar, um creme embaixo e um tipo de suspiro bem suave por cima. O sabor do creme varia, alguns restaurantes usam frutas locais, como a lúcuma ou chirimoya.  Achei gostosinho, mas enjoativo. Não é muito doce, pelo menos.
Pois é, talvez não tenha comido no lugar certo, mas caiu bem com café. Eu sou bem enjoada com doces mesmo.
Na verdade, fiquei de olho nos picarones lá. Eles fritam na hora. A fila era para eles.
 Os picarones são do tempo do vice-reinado. O principal ingrediente da massa é a abóbora e a batata doce. Eles fritam a massa que fica parecendo um donut mais fino e só vendem de cinco ou seis de uma vez. Eu só queria um! Não pode. Nem pagando o dobro? Não. Houve um certo tumulto, pois, algumas pessoas entenderam meu drama e me defenderam. Enfim, insisti tanto que uma moça, cliente na mesinha ao lado, se compadeceu e me deu um. Eles servem junto com um copinho com uma calda para você mergulhar o picarone, pois ele é bem fofo e pouco doce. É simples e delicioso. A calda é feita de chancaca (semelhante ao melado de cana) com casca de laranja. Aprovadíssimo. Comeria mais uns dois. 
Churros San Francisco, Lima, Peru
Churros São Francisco. Fica perto do Convento de São Francisco, downtown raiz mesmo. Jirón Lampa, 268. Engraçado que quando você vai chegando perto, já vê o pessoal comendo andando na rua.
É uma portinha também e pelo visto eles vão assando o dia todo. Sai quentinho e tem três opções de recheio. Pelo menos pude comprar um só e acabei doando a metade também. Estava excelente.
Churros San Francisco, Lima, Peru
Esses churros são criação de Ramon Falco Tirada, um espanhol que há mais de 60 anos adaptou a receita espanhola dando um toque peruano. Ele vivia no Peru desde os 6 anos e foi criado por monjas espanholas que lhe ensinaram tudo. Ele morreu em 2001. A marca San Francisco é mais recente e alguns recheios foram introduzidos. É um doce muito tradicional em Lima e o pessoal forma fila para comer os tais churros diferentes daqueles espanhóis que a gente conhece.
Churros, Manolo, Lima.
Uma noite, na volta da Praça Kennedy, vi um lugar que vendia churros no estilo que a gente conhece, mais fininho, que passa por uma máquina para padronizar.  Estava lotado, com filas mesmo no meio da rua. Não provei, pareciam ótimos e foi uma luta para fotografar. O lugar se chama Manolo. Os melhores churros que comi na vida foram em Valencia, eram bem pequenos e vendiam num food truck. Já sabia também (bendita internet) e fui direto. Serviam em cones de papel pardo, um monte, sem recheio, como batatas fritas. Nunca me esqueci, pois levei para o navio e mesmo frios eram maravilhosos. Minha lista de desejos se encerrou aqui, mas queria falar sobre os outros doces que os peruanos adoram.
Mazamorra morada. É uma das clássicas e de novo, o ingrediente secreto é o milho roxo da Cordilheira dos Andes. Vai canela, casca de abacaxi, marmelo, maçã e batata doce. Seu consumo se espalhou pelo Peru. Os limenhos costumam consumi-lo com arroz com leche, que deve ser como nosso arroz doce.  A cara é ótima. Come-se quente ou fria, e é polvilhada com canela. Quando o pudim de arroz vai entre duas quantidades de mazamorra morada, é chamado de "bandeira peruana". Na plataforma que uso, o blogger, infelizmente, não consigo postar vídeos. Filmei o moço derramando o pudim de arroz bem branquinho, quente, sobre o doce roxo. É apetitoso. Esta sobremesa é especialmente confeccionada no mês de outubro, data em que se comemora o Senhor dos Milagres .

Turrón de Doña Pepa na Panedería e Pastelería San Antonio, Lima
Turrón, também chamado de Turrón de Doña Pepa, é uma sobremesa 100% de Lima que ganhou fama em todo o Peru. Vi na Panadería San Antonio.
Tem finas camadas de palitos de massa de  farinha, manteiga, gergelim, cravo, ovos e açúcar e formam um xadrez. Daí isso é banhado com o mel feito de chancaca, suco de laranja, maçã, abacaxi, marmelo, banana, limão e açúcar.
Provaria se tivesse porções menores, mas a história é que é bonita. No fim do século XVII havia uma escrava afro-peruana, Josefa Marmanillo, devota do Se
ñor de Los Milagros que morava em Cañete. Era conhecida como uma boa cozinheira, porém, começou a ter paralisia nas mãos e braços. Por causa disso ela foi libertada, mas não podia trabalhar e se sustentar. Ouvindo os rumores sobre os milagres do Cristo de Pachacamilla, viajou até Lima para participar da procissão.
Era uma mulher de poucas palavras e cultura, não sabia orar e ao ver a festa, as cores, os vendedores, os doces, talvez tenha se inspirado e criou o turrón e ofereceu o doce no dia seguinte ao Se
ñor de Los Milagros na procissão e às pessoas e percebeu que já podia levantar os braços.
Turrón de Doña Pepa
Foi curada. Nos anos seguintes sempre voltou a Lima para oferecer o turrón ao 
Señor de Los Milagros e aos fiéis. Assim tem feito suas filhas, netas e todos os seus descendentes desde então. Ela deve ter colocado algum adorno colorido em cima e isso com o tempo foi modificando. É um doce que dura muito tempo. Tem um link que explica tanto sobre o Señor de Los Milagros quanto a origem do doce em detalhes AQUI. Existem várias versões tanto do milagre quanto da sobremesa.
Cachanga no supermercado Wong em Lima
Cachangas Peruanas. Me lembro de ver um doce semelhante na Cidade do México. São tortas finas, fritas e crocantes, muito populares no norte do Peru. Vi muita gente comendo com gosto no Parque Kennedy. Li que podem ser doces ou salgadas. Embora não se saiba exatamente a origem delas, acredita-se que o nome deriva da palavra quechua "kachangu". Segundo a tradição, a cachanga era usada como uma forma de corte, como uma demonstração  de galanteria para demonstrar amor, apreço e admiração por outra pessoa. Este costume continuou na época colonial, sendo os espanhóis os mais ousados nas técnicas de galanteio. Usavam a cachanga para deixar claro que gostavam da forma física das mulheres. A palavra em espanhol é piropo, não significa assédio, é paquera mesmo, do tipo: gostei de você, te acho bonita e vou te dar esta cachanga besuntada com mel para que fique mais apetitosa para você. Que tal? Bons tempos! Este costume aumentou durante os primeiros anos da República. Hoje em dia as cachangas só são encontradas nestes encontros populares. Também existem muitas interpretações deste doce.
Eu vi esse doce na Cidade do México e contei AQUI. Lá eles chamam de bu
ñuelos.
No Canadá tem um semelhante que chamam de beavertail (cauda de castor) e contei AQUI. Este mundo é uma ervilha, hehe. 
Ranfañote. Resumidamente, pedaços de pão mergulhados em mel, só que evoluiu para melhor. Nos tempos incas não havia sabores doces no cardápio, os incas não sabiam o que eram doces ou sobremesas e pode-se dizer que eram desconhecidos em todo o continente. Parte da dieta dos nativos era baseada em alguns cereais, frutas e alfarroba. Gente, não tenho ideia do que seja alfarroba. Ok, já pesquisei, vou ficar de olho. Voltando, na Europa, os cozinheiros de reis, mosteiros e, sobretudo, famílias importantes, preparavam aqueles deliciosos e doces pratos que acompanhavam a refeição principal.
Ranfañote de hoje em dia, bem sofisticado, com castanhas, etc.
Foi, portanto, a conquista espanhola que trouxe a cana-de-açúcar para o Peru e, portanto, os espanhóis que introduziram as sobremesas na gastronomia do Peru. 
Logo após a conquista, começaram as plantações de cana-de-açúcar, com a primeira usina localizada na cidade de Huánuco. Uma vez que o açúcar e o mel de cana se espalharam pelo território habitável do Peru, o povo adorou os doces que foram incorporados a todas as refeições e a qualquer hora do dia. Muito conhecido e consumido era o pão embebido em melaço. O ranfañote se origina desse costume. No entanto, pouco a pouco, começaram a ser criadas várias sobremesas inspiradas nos livros de receitas espanhóis. Outra teoria é sobre os escravos negros que aproveitavam as sobras da alimentação de seus senhores, como pão torrado, pedaços de queijo fresco, coco, entre outros.
Ranfañote em feira de Lima. 
Usando a imaginação acrescentaram mel de cana. Já foi melhorando. Isso mais tarde originou o ranfañote. Outra 
teoria explica que durante a guerra entre Peru e Chile no século XIX, pão torrado e queijo faziam parte do rancho que os soldados peruanos recebiam e que adicionavam mel a ele. Isso mais tarde levou ao ranfañote. Por outro lado, é possível que a primeira menção a este doce tenha ocorrido na pintura tradicional de meados do século XIX denominada "Ranfañote" e se refere a este doce como um "doce grotesco" de Lima. Fiquei curiosa e pesquisei muito, mas não encontrei nenhuma imagem na internet sobre o dito cujo.
A fábrica desse chocolate é peruana e havia lido que é delicioso. Provei, e como sempre, acho muito doce, mas minhas amigas adoraram. E só tem lá mesmo, pelo visto. Comprei no supermercado Wong.
Meu objetivo era experimentar a lúcuma e a pacay (ou ingá), uma fruta que parece um algodão doce natural. Daí me lembrei dos meses que passei em Mato Grosso, na fazenda de amigos e lá sim, eu vi e comi o tal ingá. Eu contei AQUI . Eu adorei, ficava brava que as araras e maritacas vinham comê-las no fim da tarde. Em 1531, durante uma expedição ao Peru, Francisco Pizarro encontrou os ingás na Baía de San Mateo, em Trujilo. Dizem que Atahualpa, o último imperador inca, deu uma cesta cheia delas para ele porque era sua fruta favorita. 
Enfim, comprei uma lúcuma no Mercado de Suquillo N1 e abri no hotel. É uma fruta verde por fora e bem amarela por dentro. A semente é do tamanho da azeitona que peguei. Ok. Agora, dizer que é " muito doce" é lenda. Textura de abacate, confere. Não tem perfume. Conhecida como “El oro de los Incas”, é uma fruta 100% peruana, originária dos vales andinos. Fazia, inclusive, parte da dieta de povos peruanos que antecederam os Incas.
Atualmente, é muito usada para preparos de sorvetes (como provei na La Fiorentina) e sobremesas como o suspiro limenho. É rica em betacaroteno, fonte de vitamina A e também é antioxidante. Conclusão: lenda! Gente, uma manga Palmer do Brasil dá de 10 a 0 na lúcuma. Sinto muito. Eu adoro experimentar frutas. É claro que você tem que dar sorte de experimentar a fruta madura. Eu odiei a primeira pitaya, comprei verde. Daí minha amiga, que exporta pitayas para o mundo, me deu uma sacola delas maduras de verdade. Adorei, fiz tortas, dei para minha neta que nunca mais esqueceu. 
Aguaymanto ,no Brasil, physalis ou golden berry. Comi numa sobremesa também. Adoro!
A fruta cocona foi descrita pela primeira vez em 1760 na região amazônica das Cataratas de Guaharibos. Tem algo de tomate nelas e não me apeteceu. Por ter pouco açúcar, é usada em vinagretes com pimenta. 
E a tuna, ou figo-da-índia, eu provei no Brasil, talvez também tenha comido meio verde e não gostei. Tem muito carocinhos que parecem os da goiaba. É uma fruta que dá em um tipo de cacto e precisa de pouquíssima água. 
A chirimoya, ou cumbe, é irmã da fruta-do-conde. Ótima.
Essa é irmã do nosso maracujá. 

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